sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Até não poder mais

A vida é uma comédia mesmo. Na verdade você passa por ciclos o tempo todo, aparentemente "injustos". Injustos porque quando aprendemos a valorizar as coisas já estamos velhos para vivê-las intensamente.
Você nasce careca, pelado e sem dentes. Baba, não sabe falar e nem sequer ir ao banheiro sozinho e sabe o que é melhor? Ninguém te julga mal por isso. Aliás, todo mundo acha você uma gracinha! Aí você cresce um pouquinho, para de chorar para conseguir tudo e passa a falar o que quer e o que não quer.
Tem idade para brincar na rua e fazer amigos é tão simples quanto respirar. Você ainda não entende o real significado da palavra amizade, mas na verdade, você em toda a sua pureza, é quem realmente entende. Você chega no colégio e por algum motivo brinca com aquele garotinho da mesma idade e no dia seguinte vocês são amigos de uma vida.
Aí você cresce mais um pouco e aquela garota bonita - que quando mais novo te irritava tanto - sorri para você. Dá seu primeiro beijo e a sensação faz seu corpo todo arrepiar. Você se forma no colégio e alguns dos seus amigos que jogavam bola com você quando tinham cinco anos perduram. Uma amizade sincera, consistente que começou por uma brincadeira. Um ciclo.
Começa a faculdade. As cobranças de saber quem é, porque é, de onde veio e aonde quer chegar. Você descobre o amor, o sexo, o trabalho, as responsabilidades e a famosa independência (que eu particularmente gosto de chamar de liberdade, de acordo com a situação). Começa a se tornar um alguém com delimitações: Ricardo, 22 anos, bacharel em ciências contábeis, trabalha na área, não quer ter filhos, mas se casaria com uma morena de olhos verdes e com senso de humor. Mais um ciclo.
Você começa a envelhecer. Se casa com a tal morena, que na verdade tem olhos castanhos vivos. Ama demais. Tem dois filhos. Faz carreira no mesmo escritório que te empregou quando ainda estava na faculdade. Trabalha 40 anos. Sabe que apesar de tudo é feliz.
Seus cabelos começam a cair e aquelas entradas, que você gostava de pensar que eram charmosas nos seus 20 anos, se tornaram pista de pouso de mosquitos no sítio e a exigirem cuidados redobrados no verão. Seu segundo filho entra na faculdade. Você está sempre cansado e não sabe porque.
Quando o caçula anuncia o noivado você sente, de uma maneira como nunca sentiu antes, o peso da idade de uma vida inteira. Antes de dormir sorri. Lembra da infância, adolescência, mocidade e pensa com seus botões que, no final, fez tudo certo.
Os netinhos vão te visitar na casa de repouso - nome pomposo para asilo - e você tem a nítida impressão de sentir exatamente a mesma coisa que sentiu quando tinha seis anos e conheceu seu melhor amigo de uma vida. Alegria inexplicável. Deseja ter aproveitado melhor as coisas.
Pensa que talvez Charles Chaplin tenha razão: que a maneira como a vida termina é injusta e que o ciclo todo deveria ser de trás para frente. Depois disto, com toda a sabedoria que só o tempo ensina - e que a maioria das pessoas idosas têm - percebe que não. Na verdade, a vida é engraçada e traiçoeira e perfeita em suas imperfeições. Mesmo os piores erros te ensinaram algo bonito, mesmo os maiores tropeços desenharam seu caminho e tudo foi exatamente como deveria ser. Finalmente as indagações de uma vida inteira que nunca tiveram respostas perdem o sentido. Você simplesmente vive, vive tudo até não poder mais.

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