terça-feira, 9 de outubro de 2012

A bolha


Já se sentiu preso em uma bolha que, na verdade, você mesmo criou? Vejo os dias passarem na janela. Ás vezes faz sol, outras esfria sem se perceber e, muito de vez em quando, chove aqui e ali. Uns chamam isso de tédio. Eu chamaria de pseudotortura. De fato, nada de tão ruim assim aconteceu. Esse marasmo só parece, por vezes, como uma picada de agulha, como quando você vai tirar sangue. Nem dói tanto assim, nem é tão ruim, mas a previsibilidade do momento já te sufoca. É rápido, limpo e até mesmo necessário, mas também indesejado. Alguns podem pensar que se a tal "picada" fosse surpresa seria pior. Concordo. Mas saber que o momento semi-doloroso irá acontecer, dia após dia não é pior ainda? Acredito que ser surpreendido com uma tristezinha aqui, acolá é mais aceitável do que se perceber surpreendido com uma felicidade incomum. A felicidade nunca é plena (fato), mas podia ter uma constância considerável. O pior é essa certeza, é esse saber que a culpa é sua, seja da sua cabeça que te prega peças o tempo todo - também, com tanto tempo ocioso - seja do seu corpo que dá sinais claros de que não está muito bom para você assim. As dores localizadas de posições erradas assistindo TV, em frente a tela do computador ou dormindo demais. A falta de força de vontade de levantar e fazer algo com você mesmo, como simplesmente sair andando por aí sem rumo. Vontade de correr, mas não mandar o comando para as pernas. Vontade de emagrecer, mas acabar comendo algo desnecessário. Fraca? Talvez, mas só para mim mesma, o que no fundo é pior ainda. Fazer o mundo crer que é uma pessoa forte não ajuda muito, principalmente naquele momento em que você explodir sem avisos. Como uma bomba-relógio que tiquetaqueava na surdina, há tempo demais. Não sobrará pedra sobre pedra. Mas meus olhos não mentem... Eu me canso de mim (risos), como esperar que não se cansem? "Caro é transformar-se num arremedo de si próprio a ponto de nem se reconhecer mais/ Hoje eu tenho 130 anos, isso não estava nos meus planos/ Você sabe, a desordem é tenaz./ Tantos laços, tantas amarras/ Os controles, pretensões/ Nada adianta se o vento não soprar...". É, estou velha. 130 anos ou 23 e olhando fotos antigas como se fossem de outra pessoa. Meu maior paradoxo é sentir-me tão velha e querer tanta coisa que só pode acontecer no tempo certo. Desejar acelerar o tempo e voltar atrás de uma vez só. Não dá. Nunca dá. Essa vontade adolescente imediatista, essa vontade adolescente de mergulhar na madrugada, não pensar em nada, viver ansiedade inconsequente. Vontade de sentir a primeira vez de tudo, todas as vezes. Vontade de sentir o corpo todo reagindo a um flerte, seja virtual ou pessoal. Vontade de se sentir observada. E no instante seguinte, ter vontade do seguro, do conhecido, do mesmo. Ter vontade de conquistar a tal independência e largar a revolta de si mesmo. Como cabe tudo aqui, neste espaço dividido entre cabeca e coração e no vão obscuro entre os dois? Ninguém sabe, ninguém viu. Acho que vou estourar a bolha amanhã.